Mirantão: turismo capaz de agradar de bichos grilo ao público sofisticado

Matéria publicada no Jornal do Brasil por Celina Côrtes em 16/02/2013

Há 19 anos, quando o Jornal do Brasil foi fazer uma reportagem em Mirantão – distrito de Bocaina de Minas, a cerca de 1h30 de Visconde de Mauá, por sua vez distrito de Itatiaia a aproximadamente 3 horas do Rio de Janeiro – deparou-se com a seguinte cena. A delegacia, um sobradinho de dois andares, estava às moscas, a cela aberta e nenhum policial à vista. Na prateleira ao lado da cela, um vidro de mel e outro com arroz integral.

Do lado de fora, um homem sentado na calçada se concentrava em esculpir com um canivete um toquinho de madeira. A repórter perguntou onde estavam os guardas e a resposta foi: “Não sei, acho que eles estão vindo no ônibus de Liberdade”, referindo-se a outro distrito das redondezas, sem se dar conta do duplo sentido de seu comentário. “E o senhor, quem é?”, perguntou a repórter. “Sou o preso”, respondeu o albergado Moyses de Malta, 39 anos na ocasião.

“Mas o quê o senhor fez para ser preso?”, prosseguiu a jornalista. “Eu tinha uma pequena plantação de maconha em Maringá (região mais turística de Visconde de Mauá). Era para consumo próprio, nunca trafiquei. Agora nem fumo mais, substituí pela ioga”, continuou o preso, para surpresa da repórter.

Passados 19 anos, o sobrado onde funcionava a delegacia foi pintado de cor de rosa e está fechado. Abre eventualmente para alguma atividade pública. O posto policial passou a funcionar em Maringá, onde há mais movimento e, portanto, mais possibilidades de registros.

A população, que era de 450 pessoas, caiu para 440, na contramão da economia baseada no gado leiteiro, hoje decadente, e no turismo que continua incipiente e representa uma rara alternativa para quem quer fugir da muvuca dos feriadões, como o Carnaval e a Páscoa. Escola, só até o Primeiro Grau. O posto de saúde funciona das 8h às 17h, mas como a auxiliar de enfermagem habita a casa ao lado, pode ser acionada em caso de emergência, bem como o médico, que mora em Bocaina de Minas e leva cerca de 40 minutos para chegar em Mirantão.

Outro aspecto, porém, permanece igual, também na contramão dos proprietários das inúmeras cachoeiras que atraem cada vez mais turistas, seja em Mirantão ou em Visconde de Mauá, Maringá e Maromba – os principais polos turísticos dos arredores. Quem subir os quatro quilômetros que separam a praça de Mirantão da Fazenda da Pedra de Furnas, onde ficam três cachoeiras de perder o fôlego, batizadas de Cachoeira da Prata, não vai se arrepender.

Generosidade

Além de não cobrarem ingresso para os visitantes, o casal de proprietários da Fazenda de Furnas, mesmo nome do enorme morro de pedra que anuncia a chegada ao local, José Bonifácio de Oliveira, 86 anos, e Palmira Diniz de Oliveira, 59, oferecem carinho e as melhores iguarias a quem chegar. Além do bar-restaurante improvisado, por onde circulam cães e galinhas sem restrições, há a cerveja estupidamente gelada e comida caseira pilotada no fogão de lenha.

Claro que tudo isso é pago e provavelmente eles recebem mais do que os proprietários que cobram ingressos, a pretexto de manutenção. “Adoro receber o pessoal de fora, são melhor de lidar do que os que moram aqui. Nunca cobramos o ingresso, só de quem faz bagunça e sujeira”, brinca Palmira, que durante a semana trabalha como merendeira na Escola Municipal José Cândido Soares.

José Bonifácio lembra que seu pai comprou a fazenda, de 38 alqueires mineiros, em 1909. Na época, ninguém sabia que o terreno escondia um verdadeiro tesouro, as cachoeiras, descobertas quando o mato foi limpado. Daí em diante, aos pouquinhos, a atração começou a ser conhecida, enquanto os proprietários foram melhorando o acesso e a infra-estrutura para receber um número de visitantes que não para de crescer. “Nos feriados, tem dia que dá mais de 100 pessoas”, contabiliza seu José Bonifácio.

Além dos petiscos para acompanhar a cerveja e a cachaça local, Dona Palmira teve a ideia de abrir o acesso de seu fogão de lenha ao público, oferecendo o melhor da comida caseira mineira. Ela inventou uma batata frita passada na farinha de trigo de suspirar, e a atividade turística já se sobrepõe à função inicial da fazenda, dedicada ao gado leiteiro.

Boca a boca

Num lugarejo como Mirantão, as histórias e lendas prosperam no boca a boca, de acordo com a fantasia de cada um. Há 20 anos, quando a reportagem tentou descobrir a origem do nome Mirantão – um lugar que não tem nenhum tipo de mirante, pelo contrário, é mirada de cima por quem chega -, ouviu uma história que mais parecia roteiro de filme. O povo já andava pensando em mudar o nome do lugar, quando dois vaqueiros inimigos teriam se deparado na praça central da – até então – Capelinha das Flores. Um deles sacou a garrucha e o outro gritou: “Mira, antão!”, batendo a mão no próprio peito.

O assassinato não teria se consumado. O nome do lugar, no entanto, mudou para Mirantão. Seu Bonifácio conta uma outra versão. Segundo ele, caçadores saíram pela mata e encontram bichos. “Ôcê viu? Mira, antão!”, disse um deles. E como a população já estava enjoada do nome Capelinha das Flores – que hoje a maioria acha muito mais bonito do que Mirantão – o título pegou e ficou.

A reportagem do Jornal do Brasil, à época publicada na Revista de Domingo, está fixada num quadro de fotos e textos na parece da Pousada Canto da Terra, uma das poucas opções de hospedagem em Mirantão. É a antiga casa do psicanalista Narciso de Mello Teixeira, 69 anos, terapeuta da Clínica dos Afetos que chegou em Mirantão há 36 anos. Junto com os amigos e familiares, já plantou mais de 10 mil árvores no terreno. Hoje quem opera a pousada é seu filho, Cristiano, professor de Artes Marciais.

Um dos diferenciais da casa também está na culinária. Há 33 anos, Regina Célia Nascimento da Silva, 56 anos, aprimora sua técnica incorporando os conhecimentos da comida vegetariana que aprendeu com Narciso e japonesa, ensinada por Beth Scheiffer, professora de Tai Chi Chuan. “Bom mesmo é receber as pessoas”, diz Regina, com carinho. De alguns pontos do terreno, assim como da serra que vai para Santo Antônio (a vila vizinha, também distrito de Bocaina de Minas), dá para avistar a imponente Pedra Selada, o ponto culminante da região, com 1.755m e formato de sela de cavalo. Ela também é visível da Via Dutra, onde é chamada de Galinha Choca.

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